ABSTINÊNCIA

 

 

Acenarei o olhar já incrédulo

Em um tão voluptuoso corpo,

Que deflagrado entre arestas

Chacina a essência

E galga fúteis emoções

Ao querer o paladar felino

Do meu mais mordaz ciúme;

Ora teu próprio assombro

Justificando tão envolvente o afeto

Dizendo-me:

- Sou de ti, mas não o pertenço!

DESGRAÇADO DESTINO!

(o alarido ressuscitado do remorso

Ainda jaz inocente!...)

E ao querer o passado

Volve ao contato mais íntimo

Se perdendo entre as dumas,

D’onde desérticas flores brotam

Da explosão do meu mais simples aceno...

 

Eu, poeta, sugo a abstinência poética

Que outrora martiriza-me

Na essência do viver...

Para nunca a alguém jamais morrer!!!

 

Élsio Américo Soares

 

 

 

AQUI JAZ

 

No cintilar inflamável

O sol adormece...

E nu

Tenebroso

Sigo o cáustico das penumbras...

Lá encontro a lua embriagada

Desfalida

Nos braços de um horizonte sem fim...

Lá encontro a poesia dos cactos

E os poetas de rapinas...

Lá encontro a solidão

Nos corpos adormecidos

Das lápides...

Lá a terra nos alimenta seus estrumos

E amamenta-nos

Como filhos do seu colo!

Lá eu me calo

No meu poema eterno:

“DE AQUI JAZ...”

 

Élsio Américo Soares

 

BRISAS

 

 

Frias almas

Que o vento enlaça –

D’onde vais enfim?

Tomar do orvalho a noite de lua?

Ou vens a mim,

Trazer o léu doutra alma pura?

D’onde vais brisas calmas?

Se a noite é minha

E tu perdida no frio és cálida!

D’onde vais aí dentro de mim?

 

 

Élsio Américo Soares

 

CACHOS  LILASES

 

 

Cachos lilases

gotejam cristais,

nas vinhas fugazes

daqueles quintais.

 

Cachos lilases

de corpos fatais,

sumos e gases

venenos mortais.

 

Cachos lilases

daqueles quintais,

bêbadas frases

de débeis mentais.

 

 

Élsio Américo Soares

CÁRCERE

 

Precipia o olhar

No áspero sonhar de velas,

Os trôpegos passos

Enterro encalços...

Co’o véu negro

Vou aninhar no coalhar da cela,

Onde um cego

Sentinela

Me vela como águia,

Como se eu fosse uma fera

Sem fôlego

E amassado

Feito o pão do diabo!

 

Élsio Américo Soares

 

 

CEGUEIRA  AZUL

 

 

Como é difícil

ficar cego,

procurar nos olhos

o brilho do abismo

e fazê-lo crescer

além do penhasco do ser...

 

Como é difícil

ficar cego,

perdido entre dumas

desérticas,

ouvindo os uivos

no anoitecer

de um pássaro-preto,

que v

o

a   e   revoa

além dos meus olhos

tão azuis e sem cor!!...

 

Élsio Américo Soares

CONTRA – CENA

 

 

Vocês mulheres

Delineadas pelo reflexo da penumbra

Que vivem elegantes

À espera dos seus homens

Sejam capazes de amar as traças

E cuspir o sêmen

Nas bocas adormecidas

De um instante

Até fecundar

Uma nova raça literária...

 

Vocês mulheres

Não são nunca senão loucas

Raparigas devassas

Perfumadas de espermas...

 

Ah! Vocês que esperneiam

No silêncio dos abajures

E murmuram na quietitude noturna...

 

Vocês mulheres

São os palcos de uma rebelião feminina

D’onde os atores pisam em cena

E contracenam

“A divina comédia humana”

Até que vocês mulheres

Sintam seus corpos

Divinos

Gozados...

 

 

Élsio Américo Soares

 

DESTINO

 

 

És guardião de mim,

Teu perfume transpira trépido

És enfim todo tédio,

Toda rosa no seu fim.

Ah! Como se eu não o tivesse!

E só me bsatasse o lume

Para ser guardião de ti!

 

 

Élsio Américo Soares

DOLOR

 

É uma certa dor

Moribunda

Que entrelaça o sorriso

E me traz a tristeza

Fazendo esquecer

P

A

L

A
V

R

A

S

E ofuscando

A outra parte minha que gera...

 

Oh é uma certa dor

Que me degenera

E faz meus olhos sentirem frio

Como as cinzas d’outro dia...

 

Oh é apenas uma dor

Leve como a morte

De quem velho

Velho tanto...

Tanto...

Tanto...

 

É apenas uma velha dor

De um certo...

Tão incerto amor!

 

Élsio Américo Soares

 

 

E A PIPA NÃO VOLTA...

 

Um vulto pálido

E menino

Empina sob o céu

Uma alma

E um ancião esquálido.

 

 

...          ...         ...

 

 

A alma desgarra

Menina e pálida

E o ancião cai

Em terra esquálida...

Já sem vulto

E já sem alma.

 

 

Élsio Américo Soares

ECOLOGIA  I

 

 

O mundo

perfuma,

adocica tua sede,

rasga tua boca a sorrir;

Dá-te o manjar,

te identifica:

pelo suor,

pelo sangue,

pela química...

Te informa,

te cobra,

Te sufoca de lamentos...

Tuas carícias o faria chorar:

Risos ou lágrimas,

Mansas ou bravias.

AME-O...

Senão ele poderá te aberrar

E sua nicotina beijar-te o cancêr,

Apodrecer-te nos palmos do seu colo

 

E nunca mais...

Nunca mais perfumar!!...

 

Élsio Américo Soares

 

ECOS

 

Rasgarei a ferida,

Com os dedos crivados

arrancarei o tumor

que me alastra n’alma;

porei meu corpo ao avesso,

buscarei a essência:

na carne viva,

na cor do plasma...

 

Desmembrarei-me

à última molécula do átomo,

até encontrar a chaga

que habita no corredor secreto do meu ego...

 

Despertarei do sono

que entorpece-me a consciência

de um efêmero pesadelo...

 

Ecoarei no deseespero obsceno

até entrar no coma fantasma

onde a paixão se entrega...

 

 

Élsio Américo Soares

 

EM  COMA

 

Há um medo aqui dentro...

Flutuante,

Inerte,

Oscilante entre a carne e a alma,

Nesse vácuo profundo de luz

Se apagando insensível.

 

Há um medo aqui dentro...

Gritante,

Ora nulo

Ou ecoante,

Se perdendo no véu grinaldo de um murmúrio.

 

Há um medo aqui dentro...

De menino se escondendo no escuro

Fugindo dos cruéis labirintos...

 

Há apenas um medo aqui dentro –

Não por desfigurar presente

Nem por partir no infinito...

 

Seria de ser lá Eterno,

Sem ter aprendido daqui o Efêmero!

 

Élsio Américo Soares 

 

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