POETINHA
na lama
ele recolhe estrelas
e põe-nas num sovado embornal.
os dedos azuis
e os olhos crivados
de areia-movediça
penetram sôfregos pelo barro...
Daí murmura lânguido:
- Meu coração
pertence a um anjo
do pantanal...
Emoldura um peixe
e coloca no embornal –
Sai feito uma poesiazinha:
- Meu coração
pertence a um anjo
do pantanal...
Élsio Américo Soares
PIETÀ
tomei a posição
de estátua-mármore...
- pensei:...
Devera ver-me o semblante –
Feito um fidalgo.
Que obra!
Que arte!
Teria-me Michelangelo!
Solitária sombra
Inacabada,
Que esculpiu
A morte em Florença...
E o meu busto
Em Renascência...
- “E avanço sozinho
por caminho
ainda não trilhados.”...
Élsio Américo Soares
PENÚRIA
Tenho medo que me impossibilite
De fazer toda razão desfluir por fim...
Canonizando demônios da elite,
Premiando-os com mil troféus de marfim...
E do Homem gerado que tem seus medos?
-Faz-se nos escuros, desfaz-se nos claros...
-Envergonha-se das honras e dos segredos...
Nele pulsa o sangue e os escarros;
Nele eu habito, eu traio, eu calo!
Eu sofro a paixão de ser inconsolado!
Eu morro na miséria que mesmo escalo...
-Eu sou o Homem que a razão procura:
Sem elite... Sem anjos... Sem o respaldo,
Sem mesmo encontrar na minha penúria...
Élsio Américo Soares
PALAVRAS
O que é viver?
Responderam-me:
-É a doce lucidez do espírito...
O que é viver?
Responderam-me:
-É a triste sensatez do fim...
O que é viver?
Responderam-me:
-É a moldura infinita de Deus...
Aí perguntei –
E quem é Deus?
Responderam-me:
-Talvez seja Ele um outro Ser!...
Élsio Américo Soares
OBSERVÂNCIA
Presencio
A tarde fechar em cio
Nuvens densas
contorcendo
No ventre do universo,
Gerando fatos diversos...
Presencio
Um corpo solitário
Esperando o cuspe do sêmen
Ventar-se em desespero,
Até cautelosamente
Sugar o líquido chuvoso...
Presencio
O espírito mover-se do silêncio
E fluir lentamente
Na noite de pesadelo...
Presencio
O sonho de uma chuva
Adormecida no colo do monte,
Na cabeceira de um rio tão doce...
Tão doce...
Élsio Américo Soares
O SONO DAS ALMAS
Camuflam no suícidio dos corpos.
Nenhum espírito desampara as carnes
Sai solitário, senta-se no madrugal e embriaga-se!
Nenhuma alma
Está solta na estrada
Seguindo as setas,
Sem pernas... Sem olhos!
Enlouqueço no meu Karma!
Separo meus lados:
Corpo esquálido
Esquálida alma.
Ele imobilizado
Atenta-se ao fluido da irmã
Solitária
Prestes a adormecer no espaço...
Enlouqueço no meu Karma!
Tomo o corpo nos braços da minha própria alma
E adormeço!
Élsio Américo Soares
O MUNDO SOLITÁRIO DE JOÃO WASTERGAT
“Até que ponto um homem pode se isolar da sociedade e criar um mundo só seu?”
Recriou a passagem além do ermo.
E neste breu que tanto vivi, a plaga
Concedeu-me esse destino eterno!
Solitário então emborquei-me na choça
Onde o lôdo crônico verteu-me a vida;
Na irracional porta que me abraça
Hoje minha voz sucinta enlouquecida!
Sabei todos que a eremitez não é dolor
E que há tanto neste mundo trucidado
Eu, sozinho vivi na paz de um sonhador!
Não tenhai-vos culpa dos meus tristes passos
Pois minha solidão sente acompanhada
Dos fantasmas que habitam que habitam nos meus ossos!
Élsio Américo Soares
O DESPERTAR DA ALMA
Olho a tez do universo
Com seus pêlos brilhantes.
Procuro-te na sombra
Da folha
Adormecida na chuva...
Teu sono
Vaga nas galáxias do infinito,
Observo de longe teu corpo despido,
Sei que teus seios pulsam
E que a pele de seda te desabraça.
Abro as asas das minhas íris – sonolentas
E em arribo alcanço o teto onde aninhas...
Daí abro-te o zipper
Para tua alma fluir...
Simplesmente acorda,
Como quem não dormiu...
Como quem não sonhou...
Autor: Élsio Américo Soares
LABIRINTOS
Palavras mudas
(Zumbidos)!!...
Gotas repicando na poça de sangue,
Gritos ardidos que vão se entregando
no escuro léu da alma humana.
e
m
e
s
t
e labirinto quadrangular?
Que ao menos livre veleje em cores,
Os sabores desses corredores:
E mudos!
Élsio Américo Soares
INSÔNIA
Esmaga-se ao passo felino,
Calmo tal luar febril das chamas.
Esvoaça pela noite garrida
Das nuas vidas da insônia,
D’onde o mel ultraja a ferida
No vértice dos ventos
E no suor esquálido das chuvas.
Suga o amanhecer da minha morte bendita
E faze de mim um cinzeiro mortal
De tuas cinzas,
Que ao calar o refúgio
Se faz fechar o bocejo irônico da vida.
Dorme e sonha junto às ninfas,
Ó cigarro curador de minha insônia!
Mata-me ao desejo
Nesta cama de esfumaço...
Mata-me, ó insônia,
Até que eu mereça dormir
Na sombra vil do cansaço!...
Élsio Américo Soares
IMAGINÁRIO FIM
Meu sangue coagula...
Vou me perdendo na imensidão do além...
Uma voz vem beijar-me os tímpanos
E o escuro é a tez do último momento...
Há ainda uma estrela
perdida no meu medo...
Há ainda uma carícia,
derradeira saudade de quem diz amém...
Há em mim o fervor
para abrilhantar a partida
neste imaginário...
Imaginário fim...
|
||
|
||